quinta-feira, 2 de julho de 2015

Capítulo 1 - Beginning


Capítulo 1

Beginning

~SooAh

Aqueles olhos grandes e esbugalhados me fascinavam. Mas não era apenas por serem tão diferentes dos demais, havia algo de misterioso e muito escondido naquelas írises cor de chocolate.
Ele era tão estranho e ao mesmo tempo tão interessante. Eu queria me aproximar dele, mas o garoto não dá abertura para ninguém. Simplesmente, senta na sua carteira ao lado da janela, no canto da sala, e fica lá olhando para o nada, ignorando tudo e todos à sua volta.
Hoje não podia ser diferente dos demais dias. O garoto estava lá com os fones de ouvidos, concentrando sua atenção em alguma coisa lá fora. Sua aparência me dava mais motivos para acreditar que ele estava se escondendo. Com uma calça jeans preta, larga demais para ele, e um moletom com capuz, que no mínimo eram quatro números maiores que o seu. O capuz estava quase cobrindo seus olhos peculiares, eu tinha que admitir, estava intrigada demais.
- Aí. - senti um peteleco na minha testa e levei minhas mãos até ela, esfregando delicadamente. – Chugulle[1], Giuli? – desferi meu olhar mais mortal para minha melhor amiga, pois sabia que tinha sido ela.
- Eu estava falando com você e de repente você ficou aí, viajando no chocolate, se é que me entende. – ela soltou sua piadinha me deixando vermelha de raiva e vergonha ao mesmo tempo.
- Cala a boca. Eu nem estava pensando nele. – menti. – Estava pensando na prova de matemática de hoje que eu vou me dar mal.
- Não conseguiu estudar pensando no garoto novo, é? – Giuli ria ruidosamente e eu desferia tapas em seus braços para que ela parasse de falar.
Reparei que o garoto olhou de relance para nós, já que estávamos fazendo muito barulho, mas depois de alguns segundos voltou sua atenção novamente para a janela. Parei de bater na Giuli e olhei para ela.
- Não é que eu esteja interessada no garoto. – comecei insegura. – Eu só o acho diferente.
- Diferente, você quer dizer estranho. O garoto fica aí com esses olhos de peixe morto e as roupas estranhas, olhando para o nada e não conversando com ninguém. – ela criticou e eu fiquei estranhamente irritada. – Sério, SooAh, esse garoto é roubada. Pode ter certeza, e não se envolva demais com ele.
- Você nem o conhece. Ele pode ser um garoto legal, mas tímido, que não se deu muito bem ainda com os novos colegas da escola. – retruquei e olhei nos olhos de Giuli, percebendo que ela sabia de alguma coisa. – Só se você estiver sabendo de algo que eu não sei. O que é que você sabe sobre ele? – perguntei esperançosa quase pulando em seu pescoço.
- Eu escutei uma conversa dos meninos da Classe 12. Eles estavam falando dos dois garotos novos, o da nossa sala e o da deles. – ela levantou um pouco da cadeira e se aproximou da minha orelha.
- Aquele tal de Baekhyun, não é? Ele é muito espalhafatoso. O que esse Baek tem a ver com ele? – perguntei apontando para o garoto encostado na parede.
- Parece que eles moram juntos. E tem, sabe, aquele tipo de relação. – ela falou mais baixo ainda, quase não dando para escutar.
- Que tipo de relação? – falei não entendendo, até que quando olhei nos olhos de Giuli percebi a malícia e quase gritei. – COMO ASSIM, ELE É GAY?
Todos na sala estavam olhando para nós agora, até o garoto de olhos grandes. Ele me encarava de um modo estranho, parecia decepcionado, ou era apenas impressão minha?
Sorri envergonhada para todos e fingi que nem fui eu que gritei feito uma louca na sala. Continuei conversando com Giuli, só que dessa vez, o mais baixo possível que conseguia.
- Isso é verdade? Ele é gay? Mas isso não é motivo pra ele se esconder e tal. Estamos em pleno século XXI. Qual é o problema? Estou achando essa história toda muito estranha. Eu nunca vi os dois juntos no colégio, eles nem vão embora juntos. – desembestei a falar e minha amiga riu.
- Você por acaso está seguindo o garoto por aí, SooAh? – ela sorriu e debochou da minha cara. – Já está assim, é?
- Isekiya[2]. - xinguei. – Eu só reparei que ele vai sozinho porque pego o mesmo metrô que ele. O garoto está sempre sozinho, pelo menos até a hora que eu desço na minha estação. – expliquei.
- Então, eu só estou te falando o que escutei. Esses meninos vivem inventando histórias sobre os outros. Lembra-se da vez que eles falaram que aquela professora de Artes era stripper na Hands Up? – Giuli disse rindo e eu acabei rindo também.
- Verdade, não pode levar muito a sério o que esses garotos dizem. – falei. – Mas você acha que ele é gay? – perguntei curiosa, olhando na direção do garoto.
- Sei lá, hoje em dia, não sei de mais nada. – ela deu de ombros. – Você realmente não está interessada nele? – fintou-me como se fosse ler minha alma.
- Claro que não. Eu só o acho intrigante, apenas isso. – respondi fazendo sinal com o dedo para ela parar de falar porque o professor havia chegado. Ela virou para frente, não antes de me olhar de soslaio e dar um meio sorriso irônico.
Enquanto as aulas iam passando, eu apenas ficava olhando para o garoto, conjecturando diversas coisas ao seu respeito. Eu queria saber mais sobre ele, e não era apenas curiosidade. Sim, menti para Giuli, eu estava ligeiramente interessada nele, mas não ia admitir isso para ninguém.
A prova de matemática até que não estava tão difícil como achava que seria. Apesar de me distrair diversas vezes, fiz uma boa prova. Levantei e entreguei minha folha para o professor, disfarçadamente olhei para trás e vi que ele ainda estava concentrado na prova. Mentalmente gritei um fighting[3] pra ele e fui embora, achando que não o veria mais hoje.
Andando pela entrada da escola, parei em um banco de madeira embaixo de uma macieira e me sentei um pouco para esperar a Giuli. Coloquei meus fones de ouvido e passei por algumas músicas no celular até encontrar ‘Why[4] da Ayaka[5].



‘Hitomi no ok uga boyake te mie nai

Kokoro no soko no kimochi wa aru no?

Why kodoku na sora wo miageru no?

Why waratte mise te yo

Tooi mukashi ni nani ga atta no?

Shisen wo sorasu anata no hitomi ni’[6]


Estava distraída, pensando em coisas aleatórias, quando sinto um vulto atrás de mim. Virei assustada tirando os fones das orelhas e dei de cara com o garoto novo da Classe 12.
- Olá, SooAh. Eu sou Baekhyun. – ele se apresentou e sentou do meu lado no banco.
- Como você sabe meu nome? – sibilei sem nem ao menos pensar.
- Ah, eu perguntei para alguém, sei lá. – Baek disse coçando a cabeça de um jeito fofo. – Mas então, você é a melhor amiga da Giuli, não é? - perguntou e podia jurar que ele estava encabulado.
Apenas balancei a cabeça afirmativamente e esperei ele continuar a falar. Baekhyun olhou para frente e não me encarava mais. Como se fosse um sussurro, ele finalmente falou.
- Eu queria saber se ela tem namorado? – ele despejou a informação tão rápido que tive dificuldade em compreender a pergunta. Sorrindo para ele neguei com a cabeça a pergunta. – Então, será que ela sairia comigo? – perguntou desajeitado.
- Sei lá, acho que sim. Por que você não pede pra ela? – respondi sorrindo. – Ela vai me encontrar aqui em alguns minutos. Por que você não fala que eu não estava me sentindo bem e fui embora, e aproveita e pede para sair com ela? Tem uma sorveteria ótima aqui por perto. – sugeri animada.
- Obrigado. - ele sorriu e pude perceber que o garoto tinha um sorriso engraçado, daqueles que dá vontade de rir também.
- Então vou indo. Boa sorte. – disse ajeitando minha mochila nas costas e recolocando os fones nas orelhas. Surpreendentemente, recebi um abraço afetuoso do garoto. Desvencilhei-me sem graça e acenei para Baek enquanto andava até a entrada da escola. Quando estava saindo pelo portão de ferro e virando para a direção da rua tropecei no pé de alguém.  – Chesonghamnida[7]. – me curvei para o estranho sem olhá-lo e quando me endireitei percebi que era ele.
Estava encostado no muro de um jeito bem sexy devo admitir, o tanto que aquelas roupas permitiam, claro. Ele precisava urgentemente de uma repaginada no visual.
O garoto me fintava intensamente, como se estivesse com raiva de mim. O que é que eu fiz pra ele? A culpa nem foi minha de ter esbarrado nele. Ele que estava escondido atrás do muro, e eu ainda não tenho visão de raio-x para enxergar através dele.
Olhei mais uma vez para ele, antes de retomar meu caminho. Acho que a Giuli está mesmo certa, esse garoto é problemático. Mas a voz extremamente sexy e grave do garoto me chamando, fez com que eu parasse instantaneamente no lugar.





















[1] ‘Quer morrer?’ em coreano.
[2] ‘Bastarda’ em coreano.
[3] Os coreanos utilizam o ‘Fighting’ ou ‘Hwaiting’ para encorajar uma pessoa.
[5] Cantora e compositora japonesa.
[6] Traduzido do japonês ‘A neblina ofuscou tanto seus olhos que é impossível para você ver. Ainda há qualquer emoção repousando no fundo do seu coração? Por que você olha para o céu solitário? Por que você não pode sorrir um pouco? O que aconteceu nos dias distantes do passado? Esses seus olhos, que se negam a olhar para o mundo.’
[7] Significa ‘Perdão’ em coreano, é uma forma de se desculpar formalmente.

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