Capítulo 3
Chase

‘Here's a riddle for you

~SooAh
Ainda bem que cozinhar sempre me
acalmou, por que eu seria capaz de matar Sehun de uma forma lenta e dolorosa se
ele aparecesse agora na minha frente.
‘Here's a riddle for you
Find the Answer
There's a reason for the world
You and I
There are answers we’re not wise enough to see’[3]
Cantando feito uma louca e fazendo
gestos exagerados arrumei tudo que tinha colocado fora do lugar. Quem é que
nunca fez isso quando os pais não estavam em casa? Colocar o som no último
volume e gritar conforme a música pedia, como se você fosse o próprio vocalista
da banda.
Resolvi estender minha arrumação e
peguei o espanador indo para a sala, enquanto cantarolava a música sem parar.
Arrumei a estante de livros, tirando todo o pó que queria estragá-los. Minha
mãe diz que sou louca obsessiva, mas eu ficava com medo de meus livros ficarem
amarelados tão facilmente, por isso limpava-os toda semana.
Depois de tudo arrumado, desliguei o
som e fui tomar um banho, já que ainda tinha muito tempo até meus amigos
chegarem. Decidi por um vestido leve, rosa e todo desenhado de caveiras pretas,
e calcei meus chinelos.
Desci as escadas e deitei no sofá,
fechando os olhos e tentando não pensar em nada. Cochilei e só acordei quando a
campainha começou a tocar, da qual fui logo atender. Giuli já foi entrando, sem
nem mesmo esperar eu falar algo, coisas que só melhores amigas podem fazer.
- O que aconteceu? Conta-me, logo.
Estou muito curiosa. – ela disse eufórica se jogando no sofá. Sentei ao seu
lado, apoiando os pés na ponta do sofá e envolvendo com os braços os joelhos.
- Você não vai acreditar no que
Sehunnie fez dessa vez. – comecei e expliquei tudo para ela, desde Sehun dando
uma de investigador profissional, até as descobertas que ele havia feito e que
contaria quando chegasse aqui. Giuli então começou a rir, e eu fiquei mais
relaxada, deixando a raiva pra lá. – Você ri porque não foi com você. Por falar
nisso, como foi seu encontro com o tal Baekhyun? – perguntei interessada.
- Foi maravilhoso. Ele é o garoto
mais fofo que já conheci. – Giuli disse com os olhos brilhando, colocando as
mãos nas bochechas e sorrindo pra mim. – Nós tomamos sorvetes e conversamos
diversas coisas. Sobre a escola, nossos hobbies, sonhos para o futuro,
relacionamentos, essas coisas, sabe. E quando ele me levou pra casa, me chamou
para sair novamente qualquer dia desses.
- Aigo[4]...
– exclamei. – Vocês ficam tão bonitinhos juntos. – comentei e ela corou. Ri
dela, mas logo me lembrei de que precisava contar outra coisa para ela. – Você
não sabe quem veio falar comigo hoje. – comentei lembrando do garoto de olhos
bonitos.
- O garoto estranho? – ela fez uma
careta e eu dei um tapa de leve na perna dela. – Sério, mesmo? O que ele
queria? – ela disse surpresa.
- Me ameaçar. – e vi a expressão dela
ficar estranha, me perguntando, como assim. – Ele me disse para ficar longe do
Baekhyun. Eu estou tentando entender até agora, mas não consigo chegar à
resolução nenhuma.
- Fica longe do Baek mesmo, em. – ela
disse brincando, fazendo biquinho e eu a empurrei de levinho fazendo uma
careta. – Isso é estranho, será que ele gosta de você e está com ciúmes? – ela
disse pegando no meu braço e chacoalhando rapidamente.
- Não seja idiota. Ele nem me
conhece. – resmunguei. – Só por que você está aí de romancinho, não venha achar
que tudo é cor de rosa. Eu sei é que foi muito esquisito o modo como ele falou
comigo. – desabafei.
- Vou sondar o Baekhyun na próxima
vez que for falar com ele. Relaxa, nós vamos descobrir o porquê dele ter agido
assim. – Giuli sorriu, o que me deixou tranquila, apesar de não achar uma ideia
muito boa perguntar as coisas para o Baek.
- Giuli, você lembra o nome do
garoto? Eu estava tentando me lembrar, mas eu não me recordo de tê-lo escutado.
– perguntei esperançosa.
- Alguma coisa Kyun, Kyung. Isso,
Kyung sei lá o que. – ela tentava recordar falando diversos nomes. – KyungJong,
KyungJae, KyungHo, KyungWoo, KyungSoo. Kyungsoo, é esse o nome dele. – e sorriu
como se fosse o gênio da esperteza.
Escutamos a campainha e Giuli foi
abrir a porta, só podia ser Sehunnie. Entrando na sala, ele colocou Giuli na
frente dele e deu um sorriso torto pra mim.
- Você não vai me bater, né? – ele
perguntou fazendo aegyo[5] e
um beicinho muito fofo.
- Apesar de você merecer ser socado
até a morte, eu não vou fazer isso. – respondi brincalhona. – Senta aqui logo,
e conta o que você descobriu.
- Pra quem não gostava do garoto, não
acha que está muito interessada? – ele debochou e se jogou do meu lado no sofá,
e eu dei um peteleco na testa dele fazendo com que Sehun colocasse a mão na
testa e exclamasse de dor. – Aish, SooAh. Isso dói.
- Pare de falar besteiras. –
resmunguei. – Ande logo, eu só estou curiosa.
- Ok. – Sehun ficou sério de repente,
e disse. – O bairro que ele mora é horrível, o que se encontra por lá são
viciados e prostitutas. Ou no caso do nosso amigo, alguém que está em uma
situação financeira beirando a miséria.
- Isso é estranho, por que apesar de
ele se vestir mal, as roupas dele são boas. – Giuli opinou. – Essa história
está cada vez mais estranha.
- Vi quando ele entrou em uma casa,
que em minha opinião era inabitável. Estava caindo aos pedaços, com um portão
de ferro na entrada todo torto e as paredes descascadas e sujas. – Sehun
continuava contando. – Não achava que a situação dele era tão deplorável.
Uma fisgada no meu peito fez com que
eu colocasse as mãos nele, e Giuli percebendo minha aflição, pegou minha mão
nas suas e encostou a cabeça em meu ombro. Sehunnie parecia preocupado também
com o garoto, que nem mesmo era seu amigo, de tão séria que era a situação.
- O que nós vamos fazer? – Sehun
perguntou.
- O que nós podemos fazer? – rebateu
Giuli. – Vamos falar que o seguimos e descobrimos que ele é... nem sei o que.
- Eu não vou conseguir olhar para ele
do mesmo modo que olhava. – disse sincera. – Até a raiva que eu estava sentindo
dele se dissipou.
- Nós temos que investigar melhor
isso. Não acho que ele parece estar em uma situação tão deplorável assim. –
Giuli falou pensativa. – Se olharmos pra ele e tirarmos a breguice, temos
roupas boas e um garoto bem roliço e limpinho. Então significa que ele não
passa fome, toma banho e tem algum dinheiro.
- Você está certa, temos que ir a
fundo nessa história. Muitas coisas não se encaixam. – Sehun concordava com
ela. – Outra coisa, eu não vi a presença de nenhum adulto na casa.
- Podem estar no trabalho e só chegam
tarde da noite, isso não quer dizer nada. Minha mãe é um exemplo, quase não
fica em casa, e está sempre trabalhando. – falei não com amargor, mas sim com
um pesar de não ter minha mãe por perto. Eu sei que não é por que ela não quer,
mas porque ela precisa me sustentar sozinha desde que meu pai nos abandonara
quando eu tinha apenas três anos.
Sinto orgulho ao pensar em todos os
sacrifícios que ela passara por mim, tanto que às vezes quase não consigo
conter as lágrimas. Eu queria que minha mãe não sofresse tanto por mim, queria
que ela fosse a mulher mais feliz do mundo. Eu não sou muito boa com as palavras,
e não consigo muitas vezes dizer todas as coisas boas que penso dela, mas tento
mostrar isso com as minhas atitudes.
- Verdade. – Giuli concordou. – Temos
que ver se a noite também não tem ninguém na casa.
- O problema é que o lugar não é
muito legal para passearmos de noite. – Sehun opinou. – Bom gurias, eu tenho
que ir embora. Amanhã eu tenho treino bem cedo e não posso faltar. – ele se
despediu de nós duas com um beijo na bochecha e foi embora.
Estávamos eu e Giuli olhando uma para
outra, pensando em tudo que ouvimos do Sehunnie e tentando chegar a uma
conclusão. Kyungsoo era uma incógnita, e parecia que cada vez que tentamos
entendê-lo, menos conseguimos.
- Eu te conheço, você está preocupada
por causa desse garoto. – ela disse alisando meu cabelo, como se fosse um
cafuné.
- E você não está? E com Baekhyun
também, já que ele mora com ele? – perguntei aflita.
- SooAh, eu realmente não acredito
que seja tão ruim assim. Tudo bem que pelo que Sehunnie nos disse o bairro é
perigoso e asqueroso. Mas olha bem pra ele, e tire suas conclusões. – Giuli me
fez refletir. - Ele não me parece do tipo que passa necessidade, ele só é
estranho mesmo. – ela caçoou e eu puxei uma mecha do cabelo dela em protesto.
- Eu gosto dele. – a frase escapou
pelos meus lábios. Giuli assentiu com a cabeça e me abraçou.
- Eu sei. – ela disse e suspirou
brandamente. – E agora vamos dormir que amanhã temos aula cedo. Tudo vai dar
certo, você vai ver. – ela tentou me animar.
- Espero. – falei
simplesmente.
[2] É
o nome artístico utilizado pelo cantor e compositor americano John Ondrasik.
[3]
Traduzido do inglês ‘Aqui está um enigma para você. Encontre a resposta. A uma
razão para o mundo. Você e eu. Há respostas que não somos sábios o suficiente
para ver.’
[4] É
uma expressão de surpresa ou incredulidade em coreano, algo como ‘Meu Deus’ ou
‘Céus’.
[5]
São expressões fofas que as pessoas usam para tirar fotos ou em certas
situações.
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