sexta-feira, 24 de julho de 2015

Capítulo 3 - Chase

Capítulo 3

Chase







~SooAh

Ainda bem que cozinhar sempre me acalmou, por que eu seria capaz de matar Sehun de uma forma lenta e dolorosa se ele aparecesse agora na minha frente.
Coloquei a torta na geladeira, quando ele chegasse, a gelatina já estaria no ponto suficiente. Coloquei uma música no aparelho de som da cozinha enquanto lavava e guardava toda a bagunça que havia feito. O ambiente foi preenchido pela melodia de ‘The Riddle[1] do Five For Fighting[2].




‘Here's a riddle for you
Find the Answer
There's a reason for the world
You and I
There are answers we’re not wise enough to see’[3]


Cantando feito uma louca e fazendo gestos exagerados arrumei tudo que tinha colocado fora do lugar. Quem é que nunca fez isso quando os pais não estavam em casa? Colocar o som no último volume e gritar conforme a música pedia, como se você fosse o próprio vocalista da banda.
Resolvi estender minha arrumação e peguei o espanador indo para a sala, enquanto cantarolava a música sem parar. Arrumei a estante de livros, tirando todo o pó que queria estragá-los. Minha mãe diz que sou louca obsessiva, mas eu ficava com medo de meus livros ficarem amarelados tão facilmente, por isso limpava-os toda semana.
Depois de tudo arrumado, desliguei o som e fui tomar um banho, já que ainda tinha muito tempo até meus amigos chegarem. Decidi por um vestido leve, rosa e todo desenhado de caveiras pretas, e calcei meus chinelos.
Desci as escadas e deitei no sofá, fechando os olhos e tentando não pensar em nada. Cochilei e só acordei quando a campainha começou a tocar, da qual fui logo atender. Giuli já foi entrando, sem nem mesmo esperar eu falar algo, coisas que só melhores amigas podem fazer.
- O que aconteceu? Conta-me, logo. Estou muito curiosa. – ela disse eufórica se jogando no sofá. Sentei ao seu lado, apoiando os pés na ponta do sofá e envolvendo com os braços os joelhos.
- Você não vai acreditar no que Sehunnie fez dessa vez. – comecei e expliquei tudo para ela, desde Sehun dando uma de investigador profissional, até as descobertas que ele havia feito e que contaria quando chegasse aqui. Giuli então começou a rir, e eu fiquei mais relaxada, deixando a raiva pra lá. – Você ri porque não foi com você. Por falar nisso, como foi seu encontro com o tal Baekhyun? – perguntei interessada.
- Foi maravilhoso. Ele é o garoto mais fofo que já conheci. – Giuli disse com os olhos brilhando, colocando as mãos nas bochechas e sorrindo pra mim. – Nós tomamos sorvetes e conversamos diversas coisas. Sobre a escola, nossos hobbies, sonhos para o futuro, relacionamentos, essas coisas, sabe. E quando ele me levou pra casa, me chamou para sair novamente qualquer dia desses.
- Aigo[4]... – exclamei. – Vocês ficam tão bonitinhos juntos. – comentei e ela corou. Ri dela, mas logo me lembrei de que precisava contar outra coisa para ela. – Você não sabe quem veio falar comigo hoje. – comentei lembrando do garoto de olhos bonitos.
- O garoto estranho? – ela fez uma careta e eu dei um tapa de leve na perna dela. – Sério, mesmo? O que ele queria? – ela disse surpresa.
- Me ameaçar. – e vi a expressão dela ficar estranha, me perguntando, como assim. – Ele me disse para ficar longe do Baekhyun. Eu estou tentando entender até agora, mas não consigo chegar à resolução nenhuma.
- Fica longe do Baek mesmo, em. – ela disse brincando, fazendo biquinho e eu a empurrei de levinho fazendo uma careta. – Isso é estranho, será que ele gosta de você e está com ciúmes? – ela disse pegando no meu braço e chacoalhando rapidamente.
- Não seja idiota. Ele nem me conhece. – resmunguei. – Só por que você está aí de romancinho, não venha achar que tudo é cor de rosa. Eu sei é que foi muito esquisito o modo como ele falou comigo. – desabafei.
- Vou sondar o Baekhyun na próxima vez que for falar com ele. Relaxa, nós vamos descobrir o porquê dele ter agido assim. – Giuli sorriu, o que me deixou tranquila, apesar de não achar uma ideia muito boa perguntar as coisas para o Baek.
- Giuli, você lembra o nome do garoto? Eu estava tentando me lembrar, mas eu não me recordo de tê-lo escutado. – perguntei esperançosa.
- Alguma coisa Kyun, Kyung. Isso, Kyung sei lá o que. – ela tentava recordar falando diversos nomes. – KyungJong, KyungJae, KyungHo, KyungWoo, KyungSoo. Kyungsoo, é esse o nome dele. – e sorriu como se fosse o gênio da esperteza.
Escutamos a campainha e Giuli foi abrir a porta, só podia ser Sehunnie. Entrando na sala, ele colocou Giuli na frente dele e deu um sorriso torto pra mim.
- Você não vai me bater, né? – ele perguntou fazendo aegyo[5] e um beicinho muito fofo.
- Apesar de você merecer ser socado até a morte, eu não vou fazer isso. – respondi brincalhona. – Senta aqui logo, e conta o que você descobriu.
- Pra quem não gostava do garoto, não acha que está muito interessada? – ele debochou e se jogou do meu lado no sofá, e eu dei um peteleco na testa dele fazendo com que Sehun colocasse a mão na testa e exclamasse de dor. – Aish, SooAh. Isso dói.
- Pare de falar besteiras. – resmunguei. – Ande logo, eu só estou curiosa.
- Ok. – Sehun ficou sério de repente, e disse. – O bairro que ele mora é horrível, o que se encontra por lá são viciados e prostitutas. Ou no caso do nosso amigo, alguém que está em uma situação financeira beirando a miséria.
- Isso é estranho, por que apesar de ele se vestir mal, as roupas dele são boas. – Giuli opinou. – Essa história está cada vez mais estranha.
- Vi quando ele entrou em uma casa, que em minha opinião era inabitável. Estava caindo aos pedaços, com um portão de ferro na entrada todo torto e as paredes descascadas e sujas. – Sehun continuava contando. – Não achava que a situação dele era tão deplorável.
Uma fisgada no meu peito fez com que eu colocasse as mãos nele, e Giuli percebendo minha aflição, pegou minha mão nas suas e encostou a cabeça em meu ombro. Sehunnie parecia preocupado também com o garoto, que nem mesmo era seu amigo, de tão séria que era a situação.
- O que nós vamos fazer? – Sehun perguntou.
- O que nós podemos fazer? – rebateu Giuli. – Vamos falar que o seguimos e descobrimos que ele é... nem sei o que.
- Eu não vou conseguir olhar para ele do mesmo modo que olhava. – disse sincera. – Até a raiva que eu estava sentindo dele se dissipou.
- Nós temos que investigar melhor isso. Não acho que ele parece estar em uma situação tão deplorável assim. – Giuli falou pensativa. – Se olharmos pra ele e tirarmos a breguice, temos roupas boas e um garoto bem roliço e limpinho. Então significa que ele não passa fome, toma banho e tem algum dinheiro.
- Você está certa, temos que ir a fundo nessa história. Muitas coisas não se encaixam. – Sehun concordava com ela. – Outra coisa, eu não vi a presença de nenhum adulto na casa.
- Podem estar no trabalho e só chegam tarde da noite, isso não quer dizer nada. Minha mãe é um exemplo, quase não fica em casa, e está sempre trabalhando. – falei não com amargor, mas sim com um pesar de não ter minha mãe por perto. Eu sei que não é por que ela não quer, mas porque ela precisa me sustentar sozinha desde que meu pai nos abandonara quando eu tinha apenas três anos.
Sinto orgulho ao pensar em todos os sacrifícios que ela passara por mim, tanto que às vezes quase não consigo conter as lágrimas. Eu queria que minha mãe não sofresse tanto por mim, queria que ela fosse a mulher mais feliz do mundo. Eu não sou muito boa com as palavras, e não consigo muitas vezes dizer todas as coisas boas que penso dela, mas tento mostrar isso com as minhas atitudes.
- Verdade. – Giuli concordou. – Temos que ver se a noite também não tem ninguém na casa.
- O problema é que o lugar não é muito legal para passearmos de noite. – Sehun opinou. – Bom gurias, eu tenho que ir embora. Amanhã eu tenho treino bem cedo e não posso faltar. – ele se despediu de nós duas com um beijo na bochecha e foi embora.
Estávamos eu e Giuli olhando uma para outra, pensando em tudo que ouvimos do Sehunnie e tentando chegar a uma conclusão. Kyungsoo era uma incógnita, e parecia que cada vez que tentamos entendê-lo, menos conseguimos.
- Eu te conheço, você está preocupada por causa desse garoto. – ela disse alisando meu cabelo, como se fosse um cafuné.
- E você não está? E com Baekhyun também, já que ele mora com ele? – perguntei aflita.
- SooAh, eu realmente não acredito que seja tão ruim assim. Tudo bem que pelo que Sehunnie nos disse o bairro é perigoso e asqueroso. Mas olha bem pra ele, e tire suas conclusões. – Giuli me fez refletir. - Ele não me parece do tipo que passa necessidade, ele só é estranho mesmo. – ela caçoou e eu puxei uma mecha do cabelo dela em protesto.
- Eu gosto dele. – a frase escapou pelos meus lábios. Giuli assentiu com a cabeça e me abraçou.
- Eu sei. – ela disse e suspirou brandamente. – E agora vamos dormir que amanhã temos aula cedo. Tudo vai dar certo, você vai ver. – ela tentou me animar.
- Espero. – falei simplesmente.                                    





















[2] É o nome artístico utilizado pelo cantor e compositor americano John Ondrasik.
[3] Traduzido do inglês ‘Aqui está um enigma para você. Encontre a resposta. A uma razão para o mundo. Você e eu. Há respostas que não somos sábios o suficiente para ver.’
[4] É uma expressão de surpresa ou incredulidade em coreano, algo como ‘Meu Deus’ ou ‘Céus’.
[5] São expressões fofas que as pessoas usam para tirar fotos ou em certas situações.

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